domingo, 12 de abril de 2015

Conto: Cathos II

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CATHOS II

Baixei os olhos para evitar a luz vermelha que vinha forte em minha direção. Era o quinto chamado essa semana e, dessa vez, eu tinha certeza de que encontraria Gallahad.

Não havia mais de três meses que havia sido resgatada pelo grupo 13 de Depuração, sendo incorporada à equipe responsável pela limpeza de territórios de pouso no planeta EKS-10. Atuávamos sob ordens diretas de Victor Marshall que, nesse exato momento, impedia minha passagem para a sala de controle.

– Cathos.

– Senhor. – Parei há alguns poucos centímetros. Tentei baixar a cabeça, mas ele ergueu-a com violência. Sua mão enluvada apertava a lateral de meu rosto, fazendo com que as bochechas se comprimissem como se eu fosse uma criança.

– “Victor” – Corrigiu. Seus olhos bizarramente vermelhos encaravam-me com tanta intensidade que fez correr um leve arrepio por meu corpo. – Para onde pensa que vai?

    Livrei-me de seu aperto e saltei para trás. Minha testa franzia quase que por instinto, mas eu sabia que não tinha autoridade o suficiente para enfrentá-lo agora.

– Para onde o “senhor” desejar. – Ele ergueu as sobrancelhas, e eu sabia que devia ter parado por ali.
 – Não tem sido assim desde que cheguei?

– E assim será enquanto eu “desejar”. – As aspas que usara em sua voz tornavam aquele aveludado sonoro em algo terrivelmente irônico. Sem pestanejar, pousou a mão direita sobre meu ombro e puxou-me para dentro da sala com um solavanco.

    Paramos diante do monitor principal e ali eu vi, enfim, o símbolo vermelho que me chamara a atenção no quarto. Victor, ciente do que eu buscava com os olhos, desligou o alerta e alterou as rotas de comando, sinalizando para que as tropas em serviço não se dirigissem à região. Uma lágrima quente subiu-me os olhos enquanto o aviso em vermelho desaparecia na tela.

    Victor observava-me atentamente. Sabia que analisava minha expressão agora, então fiz algum esforço (que eu suspeitava ser em vão) para não deixar transparecer a raiva que começava a ebulir dentro de mim. A lágrima não escorreu, e pude testemunhar sua luta para manter-se dentro dos olhos, junto do resto de dignidade ao qual eu ainda teimava me agarrar.

– Cathos, há quanto tempo você está aqui?

 – 83 dias, senhor.

– Hm. – Ele arranhou a garganta enquanto deixava um suspiro breve escapar. – Você tem família na Terra?

– Não, senhor.

– Amigos?

– Sim.

– Sente falta deles? – Ergui meu rosto de súbito, confusa com a série de perguntas. Victor sempre fora bastante econômico com suas palavras, não dispensando mais do que ordens e algumas raras ironias. Isso significava que o que eu sabia dele se limitava ao que pudera observar desde que chegara à base do grupo 13. E não, isso não era mais do que sua preferência por chá preto e pelo hábito de apertar os próprios lábios com o indicador enquanto pensava.

– Naturalmente. – Respondi enquanto engolia o choro.

– Da unidade 8822? – Sabia que falava de Gallahad, meu companheiro de nave que havia se perdido próximo de um ninho de vespas carnívoras.

– Sim.

   Minha afirmação soou mais baixa, e ele logo voltou a andar pela sala. Não podia vê-lo, mas sabia que se posicionava atrás de mim. Senti quando tocou meu ombro, a respiração soando próxima demais.

– Cathos... Um final feliz depende de onde paramos de contar nossa história. – Meu coração gelou nesse instante. – Você pode escolher parar agora e ter seu amigo como uma boa e saudável recordação, ou pode seguir com seu conto de fadas e se deparar com um “felizes para sempre” bem diferente do que esperava.

   Mantive-me em silêncio por mais alguns segundos. Meus olhos pararam sobre as botas de couro envernizado que Victor usava. Não haviam manchas ou arranhões, mesmo que fossem estas as mesmas usadas em batalha. Ele deu um passo para trás e me surpreendeu com um abraço na altura da cintura. Meu coração só não saiu pela boca por que ainda estava bem preso ao meu corpo, mas juro que em outra situação ele provavelmente sairia e começaria a correr para longe.

– V-Victor? Que raios está pensando...?

   Tentei me desvencilhar daquele abraço, mas só então reparei que prendia um cinto de combate ao redor de meu corpo. Dentre outros apetrechos, segurava com cuidado um vidrinho com um líquido verde, e não se dignou a explicar do que se tratava. Apertou-me contra si mais um pouco e logo se afastou, saindo em direção à porta. Ouvi-o virar-se mais uma vez e esperar que eu o encarasse de volta.

– A frustração, experimentada repetidas vezes, pode vir a se tornar um vício doentio, Cathos. Preferiria vê-la morta a degradada sobre as próprias incapacidades. – Eu não fazia ideia sobre o que Victor falava, mas observei seu semblante sério endurecer sob um olhar frio. – O peso da irrealização é pesado demais para essas mãos de menina.

   E sem dizer mais nada, saiu de volta para o corredor. Suspirei impotente, incapaz de compreender o sentido de suas palavras, mas sabia que não havia tempo a perder. Voltei-me para o monitor da sala e puxei a localização do alarme. Gallahad não estava muito longe. Essa seria a melhor, ou talvez a única, chance de resgatá-lo.

    Saltei para fora da unidade de defesa já com as armas em punho. O GPS sinalizava a direção que eu deveria seguir para chegar, em segurança, até o ninho das vespas. Coloquei o visor sobre os olhos e abaixei o corpo. Correria por aproximadamente 40 minutos até ser obrigada a rastejar para dentro da terra. Não teria como dar errado.

Dessa vez eu estava preparada.

   

2 comentários :

  1. "Um final feliz depende de onde paramos de contar nossa história. "
    Com essa linha já fui com a cara do Victor.

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    1. Ele não é lá a melhor pessoa do mundo, mas certamente deve ser a mais sensata ali.

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