sábado, 21 de fevereiro de 2015

Mais uma Sardinha para o Enlatado de São Paulo

3 comentários


Essa foi a minha primeira vez no metrô de São Paulo.

Eu venho de Belo Horizonte, terra em que o metrô anda sobre o solo, e não debaixo dele. Então é até difícil explicar o meu espanto quando me vi obrigada a descer, sim, descer para debaixo da terra. Sempre acreditei que isso só fosse acontecer no meu momento final, quando já fria, eu fosse ajeitada dentro de uma caixa forrada de veludo e logo posta no fundo de um buraco, sem ouvir os choros dos que ficam, e a narração de um padre que eu provavelmente desconheço. Daí a terra me cobriria e talvez alguém dissesse "Mas era uma pessoa tão boa...". Ou talvez nem dissessem isso, mas conforta-me pensar que, pelo menos na hora da morte, eu fosse algo melhor do que fui enquanto viva.

Enfim, eu parei um tanto incrédula diante da escada rolante. "Mantenha-se à direita" foi a primeira coisa que li. Sem entender, agarrei-me à esteira do corrimão e curvei-me, como um gato diante da  torrente de água fria que está prestes a ser-lhe lançada. E foi assim mesmo que me mantive pelos próximos dois ou três lances de escada. Não era possível. Naquela velocidade eu logo chegaria ao magma do centro da Terra, ou pior, em alguma fábrica de trabalho escravo na China! Meus olhos buscaram auxílio ao redor, mas as pessoas desciam e desciam como se já houvessem sido preparadas para aquele momento aterrador durante toda a sua vida.

Não demorou muito para que eu finalmente me visse diante da Bilheteria. Achei engraçado tudo ao redor ser tão colorido, tão amarelo. Talvez para aliviar a tensão de haver quilos ou toneladas de terra bem sobre a sua cabeça, apoiadas sobre plataformas de concreto que deviam ser tão ou mais pesadas. Caminhei meio assustada pela linha azul que delimitava o caminho até a bilheteria, zonza pelas imagens de pessoas soterradas que teimavam em dançar em minha mente. Provavelmente eu era a única a se sentir assim, já que no instante seguinte dezenas cortaram-me a passagem e saíram apressados com os bilhetes. Comprei o meu e, por mais que não quisesse acreditar, ainda haviam outros lances a serem descidos até a área de embarque do metrô.

Sim, eu desci mais, e mais e mais. Na minha mente, diálogos começavam a ser ensaiados para o caso de eu me encontrar com o grande senhor do Submundo. De Hades a Satã, imaginei cumprimentos hora engraçadinhos hora submissos. Precisava me garantir antes de chegar lá embaixo.

Para meu espanto, o que encontrei foi algo pior que o Rei das Trevas. Talvez uma rápida analogia com o mar mitológico das almas fosse pertinente nesse momento. O barqueiro já havia cobrado minha passagem, absurdos R$3,50, e nenhuma moeda de ouro. Dezenas, centenas e milhares de cabeças espremiam-se pela porta do metrô. Não vi homens nem mulheres, nem os entremeios, apenas uma grande massa amorfa apertando-se desesperada para ficar mais perto da porta. Segurei a respiração e mergulhei ali, meio contra a minha própria vontade, mas suponho que toda morte seja assim: meio sofrida, meio antecipada.

Mergulhei, e nadei com a correnteza que me levou para dentro do carro. Ali dentro, senti-me metamorfosear no ser cascudo de Kafka. Apertei-me por entre outros corpos e fui assim enlatando-me, passando de barata a sardinha. Sardinha porque não havia mais como erguer os braços, então mantive-me assim, no formato de um peixe apertado na lata escura. Claro que, depois dessa experiência minha simpatia por esses pobres bichinhos cresceu de maneira extraordinária. Não há felicidade no metrô lotado.

Quando a porta se abriu, a enxurrada varreu-me para fora com certa violência e, pela primeira vez, meus órgãos voltaram às posições originais. Senti o estômago descer e desencaixar do pulmão, ajeitando-se sobre o intestino que ainda teimava em se desdobrar. Formei-me Laura, humana novamente, e esperei que o cardume fosse para longe. Sozinha, tomei o meu tempo para admirar as escadas que finalmente pareciam levar para cima. Não me importava agora se estaria Gabriel ou São Pedro à minha espera no final daqueles infinitos degraus, só queria livrar-me, desesperadamente, daquele assombroso aperto que a terra parecia causar.

Subi, ou melhor, escalei os degraus em direção à luz, impedindo que as pupilas se contraíssem. Não queria perder nem um momento daquela ressurreição. Lembrei-me de Jesus, quem desceu à mansão dos mortos e precisou de três dias para subir. Admirei-o. Minha viagem levara apenas alguns minutos, alguns sofridos minutos, e já me martirizava. Saía, enfim, da mansão dos mortos, do mar das almas, do enterro prematuro, e voltava à segura-não-tão-segura superfície do planeta. Tal qual astronauta, pousei sobre a Terra, aliviada por estar de volta, e agradeci a Deus.

BH, com o seu metrô que vai de lugar nenhum para lugar algum, jamais me enterrara, me metamorfoseara. Mas ainda faltavam 45 dias nessa cidade de sardinhas. Talvez fosse melhor voltar ao ensaio de meu diálogo com as entidades do outro mundo. Enlatados são inegavelmente perecíveis depois de abertos.

3 comentários :

  1. Esses contos seus sao para nós orfãos de Jeghen Fal! kkk
    Adoro seu jeito de escrever é unico e cativante. Quero ser a primeira a saber qnd lancar um livro!

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    1. Hahaha obrigada Ana! Estou tentando nesse caminho tortuoso, espero conseguir ainda (e dar certo) xDD Podea que eu aviso, aviso pra todos, pro mundo!!

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  2. Adoro ler seus textos. Eles prendem-me. Ao ler as primeiras linhas prendo-me na curiosidade e continuo com a certeza de que ficarei adimirada, satisfeita com a forma em que o assunto foi abordado. Parabéns! Te amo!

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