quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Conto: Deus te abençoe

2 comentários

"- Laura, leva lá pra ele."

Eu não lembrava o nome dela, mas peguei o copo de plástico com pressa, cuidando para não tropeçar no escuro doentio daquele lugar. Ela apontou. O dedo magro indicava uma massa acinzentada envolta por tecido que eu sabia ser desses antitérmicos que o governo, de tempos em tempos, distribuía aos infelizes das ruas. Cravei os dedos trêmulos ao redor do copo, que lentamente se deformava no apertar desesperado que eu nem me esforçava para conter. Caminhei, pé ante pé, em direção à área fumacenta do parque. As árvores curvavam-se desgostosas sobre mim, formando uma espécie de arco. Senti-me diante da porta do inferno, envolta pelas sombras pesadas que se moviam sem sair do lugar. O odor putrefato entregava a situação dos que ali viviam. Não era um, nem dois, mas uma multidão de sombras que se escondia nas folhagens oscilantes. Eu tremia, dos pés à cabeça. Ofegava sim, não pelo frio, mas pelo terror de haver sido a única responsável por estar agora naquela situação. Não demorou muito para que minha mente enublasse os pensamentos. Por quê mesmo havia concordado em participar daquilo? Já era tarde. Queria estar em casa. Queria meus pais. Minha cama. Mas, independente disso, meus pés continuavam a me levar na direção da figura encurvada. Aproximei-me. Os olhos marejados impediam-me de compreender sua figura disforme. Mas não precisei ver, e agradeci os ouvidos que se ensudeceram para todo o resto naquele instante.

"- Deus te abençoe."

Foram essas as palavras que despiram-me de toda a dúvida, de todo medo, de todo tremor. Naquelas mãos cadavéricas, o copo de plástico tornava-se santo graal. Rígido, forte. Panaceia suave e consoladora. Meus pés voltaram ao chão, fixando-se na certeza que aquele consolo trazia. No que estivera pensando? Não eram figuras, nem sombras, nem deformidades. Minha visão retornava aos poucos, traduzindo todas as formas em irmãos esquecidos pelo tempo. Irmãos que eu, vestida de medo, também esquecera em algum momento.


2 comentários :

  1. estava esperando pelo proximo conto!
    lindo, como sempre.

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  2. Estou esperando é por um livro seu! Quando sai? Pelo menos o Jeghen Fal!

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